
“Ame, e faça o que quiser” (Sto Agostinho). Sempre considerei essa afirmação agostiniana como de uma força definidora para uma vida, uma meta a cumprir; assim como algo cheio de um espírito de liberdade único que no entendimento dele era a verdadeira liberdade. Uma condição salvadora e humanizadora, tão simples a primeira vista, mas que levará uma vida para ser cumprida. A frase leva a no primeiro momento prender o fôlego com seu “ame”. Uma ordem, algo imperativo, um mandamento? Um conselho, uma sugestão, um pedido, um apelo? Pensamos em uma voz suave, um tom pesado, rude, agressivo, em gritos, um sussurro de alerta? Talvez esse tom mude a cada momento conforme nossa necessidade de sempre ouvir esse sempre excelente pedido de amar.
A segunda parte é algo que todos dissemos a nós em algum momento: “e faça o que quiser”. Quero fazer o que eu quiser. Quero poder fazer o que eu quiser. O “eu” até que aparece muito nessas orações. Vale repetí-lo porque cada um de nós, em seu eu, é agente de uma vontade, de um querer e somos assim constituídos, bem na nossa essencialidade, de desejo. Um alerta é que o fazer o que quiser pode ser tão aberto que assusta a muitos e esses muitos se prenderão fazendo coisa nenhuma do que querem, mas empenhando-se a uma vontade alheia a sua, esvaziando-se da responsabilidade de decidir e assumir as consequências do seu querer. Algumas vontades serão tênues a tal ponto de confundir um observador que questionará atônito: “o quê esse quer?”
Deixo sem elaborar aqui outro problema do que quer sempre mais ou diferente, que muda a cada momento ou avança a cada instante como se quisesse mais. Esse não assustaria um Agostinho que já descobriu o que se passa e qual o remédio: “fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”.
Quero muito amar, quero tudo fazer. O amor e a liberdade, dois infinitos que se regulam expressando que não há medida em nossa liberdade e em nossa capacidade de amar, mas os dois se medem bem quando se entrecortam e acontecem um com a existência do outro, a ponto de um só existir por conta do outro. Além de corresponderem a anseios básicos nossos, profundos e quase viscerais. O amor aparece com assinalamentos na carne, simboliza-se com representações mentais, em nossa alma e chega a espiritualizar-se com o que foi chamado de caridade. Não nos enganemos, tudo é amor, qual, porquê e se realmente estou amando quando acho que amo, como dizem, são outros quinhentos. O problema não é só no fazer por amor, mas de um questionamento autêntico e sincero atuante a cada hora se tenho amor em mim e se esse meu ato vem dele.

Uma imagem que me vem é o de uma roda d’água que enche-se em cada compartimento e com o peso move-se realizando um trabalho. Não se mova antes de ter se enchido. Acredite no trabalho que você realiza provindo dessa dinâmica. Gastando um pouco mais o simbolismo, deixe essa água ir para que outra chegue e renove-se de novo e de novo. Gaste-se numa vida que já por si é uma grande roda e não sabemos quando vai parar. Há uma promessa que não parará. Abuse dessa liberdade vislumbrada por Agostinho de Hipona e que resumiu para nós toda uma doutrina com um “ame”.
“Acenda, o Senhor, em nós, o fogo de seu amor e a chama da eterna caridade. Amém” (Missal Tradicional: Missal Dominical Tridentino em latim e português, 1962).
