“A palavra convence, mas o exemplo arrasta”

Seu Ednildo Lira, morador da Ilha de Itamaracá-PE, morou em um frio buraco, um antigo forno que há muito não queimava, mas ele, após uma combustão criativa, ergueu um bonito casebre, reflexo da sua beleza interior.

Lá vendendo seu artesanato, conta sua história de superação para quem quiser ouvir. Um verdadeiro exemplo da potência humana. Martelou em minha cabeça várias vezes o conceito de “amor fati” de Nietzsche e demorei-me escutando o artista plástico enquanto surgia em minha mente as imagens de uma família abrigada precariamente na grota, tido como louco pelos passantes, a erguer primeiro uma coberta e em seguida toda uma construção que de justa em justa medida buscava o harmônico, o estético, o belo. E voltaram sobre o rastro aqueles que agora o “chamam de artista”. 

Desgostosamente para o “homem que matou deus”, este super homem encontrou o sentido da sua experiência em termos religiosos. Na religião ele explica seu destino e dela tira sua força e tudo vira uma missão e incumbência do divino. Mesmo quando pelo fogo sua obra foi abaixo e pelas suas mãos volta ao alto. Quanto mais este homem deve ser testado para abrir mão de sua fé? Uma convicção vivida por ele, assim como por sua parceira e crescida com seu filho. 

Talvez nos falte fé nesses dias esquecidos por Deus. Fé na vida, esperança por algo, crença de que o homem é mais. Talvez falte alimentar o espírito e ver nele a ideia de bem e dessa ideia fazermos o belo. A ideia do bem foi bem sólida em seu Ednildo, bem nutrida, não podia enganá-lo um mundo de feiura. E se em seu mundo de outrora faltava o belo, ele foi seu autor, seu contribuinte, o mundo é mais bonito porque ele quis que fosse e “assim trouxe luz para onde só havia trevas”. 

Nosso operário sente-se um profeta e que assim seja. Seja para nós seu ofício uma denúncia e provocação. Denúncia que estamos no fosso adormecidos sem paixão e provocação  por não transformarmos a nossa “agonia em êxtase”. Mas quantos de nós o consegue? Quem de nós poderá escapar do cotidiano, do fastio, do repetitivo, da falta de ideias. Já não somos um forno e pouco sobrou das cinzas. Coloquemos nossas cabeças para funcionar em um movimento dionisíaco para da alegria de novo desfrutar. Pode ser que a vida seja um vinho de guarda e parece que anda escondida, descubramo-la e bebamos aos goles, inebriemo-nos dela. 

Para quem nem um só copo sobrou, não reclame ainda. Seu Ednildo nos diz, plante seu vinhedo, cultive suas uvas, faça seu vinho, tenha paciência, mas faça seu destino. Ele não percebe, mas foi isso que ele fez, fez seu destino e nisso voltamos ao “amor fati”. E para ele foi transformar água em vinho. E pode ser que siga transformando cada um que escuta esta história e pensando em si preencherá seu vazio, repensará suas ruínas e aproveitando-se de suas fundações, subirá sua propriedade, seu edifício. Mais uma vez pode ser ele um artífice sem nem perceber. O trabalho com as mãos é de imediato percebido, mas o com as palavras segue um ritmo diferente, porém ainda será o mesmo bem a se manifestar no belo vivenciado na beleza de cada um. Se a “palavra convence, mas o exemplo arrasta”, seu Ednildo tem os dois: palavra e exemplo para quem a ele for. 

Quando passarem em Itamaracá não deixem de visitá-lo. Conheçam e comprovem com seus próprios olhos essa história da salvação do humano que em seu semblante e fala, bem que se pode enxergar o divino.

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ezronmaia

Médico psiquiatra especializado em atendimento de crianças e adolescentes. Bacharel em filosofia. Estudante de bacharelado em teologia. Interessado em psicanálise.

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