“Tragam-me o horizonte”

Na franquia “Piratas do Caribe”, o capitão Jack Sparrow porta uma bússola mágica que aponta para onde está seu maior desejo. Qual a vantagem de se ter uma dessas? Seria realmente bom tê-la? Quem a tivesse destacaria-se entre os seus como aquele que faria ou teria algo grandioso?

Para alguns talvez resultasse em tomento portar tal instrumento. Parece que alguns de nós está fadado a esconder sua vontade, seu desejo, manter seu querer sempre no mais profundo, o que dirá sair em busca dele. Que vexatório seria o reconhecimento de estar indo para o lado contrário ao qual aponta a bússola. Que desculpa poderia ser dada: enganei-me de direção? Não havendo consenso de que teríamos uma navegação segura portando esse instrumento, seríamos nós do grupo que gostaríamos dela ou que a teríamos como inimiga? Alguns diriam-se revelados, descobertos, envergonhados de terem diante de si seu segredo de querer o proibido, o inacessível, o difícil. No filme, ao se descobrir o que a peça aparentemente quebrada faz, pois ela não aponta para o norte, ela se torna em si um desejo e promotora de disputa. Ela é compreendida como capaz de levar aos tesouros escondidos. Interessante que você precisa saber qual tesouro quer, mentaliza-lo de alguma maneira. Parece ser apenas possível desejar o que se conhece ou sabe-se.

Mas porque iriamos nós precisar de um objeto mágico para buscar o que queremos? Como pode nós, seres inteligentes e livres, arquitetos do nosso destino precisarmos de um sussurro de recomendação: vai por ali. E sabendo que é no nosso tesouro que mora nossa fonte de realização, e quem sabe, o motivo da nossa existência; não iriamos pressurosos a ele? Vai ver é porque tudo é um pouquinho mais difícil do que um pote de ouro velado e a destreza de encontrá-lo em seu esconderijo secreto. Talvez não se trata do vil metal e do mero título de homem rico. Parece que o “conhece-te a ti mesmo” pode ter haver com isso. Saber de ti se é mesmo ouro do que gostas ou terias outras coisas ainda mais deslumbrantes desde algo material: casas, veículos, parceiros sexuais, a intermediários como viagens, quem sabe mais  espirituais como o prazer de aprender um idioma novo, ler um livro, saber cada vez mais; quem sabe uma disposição de espírito, ser mais virtuoso, espiritualizado, a lista não tem fim. E se a bússola apontasse para tesouros dentro e não fora de nós, identificando e ajudando cada um a achar o que há de melhor em si e com isso expressá-lo no “sendo” de cada dia?

“Tragam-me o horizonte” é uma das últimas frases do personagem no primeiro filme da franquia, “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”, além de em seguida falar genericamente — Malvados demais. Talvez aí faça uma revelação do que é preciso, de qual é a natureza de um pirata para só assim poder se lançar no horizonte. Algo como conhecer a si mesmo e só depois poder seguir a agulha magnética magnetizada pelo seu grande desejo de tesouro. E na pilhagem e cobiça desmedida vê-se mais maldade, mais pirataria e mais o capitão Jack Sparrow é o que é. 

A desorientação sentida em não se ter um norte pode ser angustiante e não saber-se pirata, mocinho ou herói deve ser mais fustigante ainda. Mas quem disse que é para o norte que devemos ir? De onde vem a noção que nos pertence apenas um papel? Sejamos quem formos, arrisquemos uma rota, afinal, o que temos é o horizonte e o que realmente nos falta é coragem.

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ezronmaia

Médico psiquiatra especializado em atendimento de crianças e adolescentes. Bacharel em filosofia. Estudante de bacharelado em teologia. Interessado em psicanálise.

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